Lucimar Souza – Jornalista

Pesquisador, montanhista e escritor, Moacir Tavares Júnior transforma experiências pelas montanhas e pesquisas sobre a história ambiental de Minas Gerais em livros que aproximam ciência, memória, emoção e consciência ambiental.

Há escritores que encontram suas histórias em bibliotecas. Outros precisam percorrer caminhos, subir montanhas, conversar com pessoas e observar de perto as marcas deixadas pelo tempo. Moacir Tavares Júnior reúne essas duas experiências. Pesquisador, montanhista e escritor, ele transforma suas andanças e investigações em narrativas que aproximam o leitor da natureza e da história de Minas Gerais.

A escrita, conta o autor, sempre fez parte de seus desejos. O projeto de publicar um livro, porém, só ganhou forma depois da conclusão do mestrado em História Ambiental, durante o período de isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19. O resultado foi “Diário de um Montanhista”, publicado em 2021, relato de uma expedição por uma região inóspita dos Andes, realizada ao lado do amigo montanhista Rafael Curial.

Dois anos depois, uma nova pesquisa levou Moacir a outro caminho. Em 2023, ele iniciou o trabalho de campo que daria origem a “Ouro, Ferro e Lama”, publicado em 2025. A obra investiga os impactos socioambientais provocados pela mineração de ouro e de ferro em Minas Gerais ao longo dos últimos dois séculos.

A origem desse segundo livro está em uma lembrança particularmente marcante. Em 2010, no Parque Estadual do Rio Doce, Moacir encontrou uma placa com um trecho do naturalista francês Saint-Hilaire, escrito no início do século XIX. O relato descrevia o encantamento diante da majestosa floresta às margens do rio Doce. O que o impressionou foi perceber que aquela paisagem já não existia.

A partir dessa constatação nasceu a ideia de refazer parte dos caminhos percorridos por Saint-Hilaire e comparar a paisagem registrada pelo naturalista com aquela encontrada dois séculos depois. O título da obra sintetiza esse encontro entre passado e presente: Saint-Hilaire registrou os impactos da mineração de ouro; Moacir voltou aos mesmos locais para observar os impactos da mineração de ferro e as consequências da lama decorrente dos rompimentos de barragens ocorridos em 2015 e 2019.

É nesse ponto que pesquisa e literatura se encontram em sua escrita. Para Moacir, os fatos e dados científicos são fundamentais para dialogar com a razão do leitor. Mas a experiência vivida durante o trabalho de campo também produz emoções e sentimentos que, segundo ele, acabam incorporados espontaneamente ao texto. Ciência e emoção, portanto, não competem: complementam-se.

A montanha ocupa um lugar especial nessa trajetória. Nas alturas, Moacir diz ter aprendido uma primeira grande lição: humildade. Diante da beleza e da imensidão da criação, percebeu o quanto somos pequenos. Em uma experiência de duas semanas em uma região remota, levando apenas o que cabia na mochila, descobriu também outra dimensão da vida: o desapego e a percepção de que precisamos de muito pouco para viver.

Seu olhar para a natureza, entretanto, não se limita à contemplação. Para o pesquisador, é possível conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental, desde que a legislação seja efetivamente aplicada e fiscalizada. Ao mesmo tempo, ele demonstra preocupação com o enfraquecimento do licenciamento ambiental e da fiscalização em Minas Gerais, especialmente diante das tragédias de Mariana e Brumadinho.

A literatura, nesse cenário, assume para o autor uma função importante: despertar o pensamento crítico. Moacir também ressalta a importância das universidades públicas para a produção e a divulgação do conhecimento científico no Brasil, lembrando sua formação no mestrado realizado na UFMG.

Entre suas referências intelectuais estão o astrônomo Carl Sagan, o naturalista Saint-Hilaire, o historiador Warren Dean e o jornalista Laurentino Gomes. Na literatura brasileira, destaca Guimarães Rosa e Grande Sertão: Veredas, obra que o encantou profundamente. A diversidade dessas referências ajuda a compreender a própria natureza de sua escrita: uma literatura que procura transitar entre conhecimento, história, experiência e sensibilidade.

Para o escritor independente, curiosamente, o maior desafio não está em escrever, mas em fazer o livro chegar aos leitores. Sem o apoio de uma editora para a divulgação, essa etapa se torna uma das maiores dificuldades de quem decide transformar pesquisa e experiência em publicação.

Ainda assim, Moacir deixa aos jovens pesquisadores e escritores um convite generoso: compartilhar conhecimento, experiência e visão de mundo por meio de um livro. Para ele, tocar a mente e o coração das pessoas pelas palavras é uma experiência maravilhosa, além da possibilidade de tornar ideias acessíveis e preservá-las para o futuro.

E as trilhas continuam. Atualmente, o autor trabalha, em parceria com um amigo, no levantamento histórico de uma localidade do interior de Minas Gerais. Livros, depoimentos, fotografias e documentos estão sendo reunidos para uma futura publicação. Mais uma vez, pesquisa e memória se preparam para encontrar a literatura.

Talvez seja justamente aí que esteja a essência de Moacir Tavares Júnior: caminhar para conhecer, pesquisar para compreender e escrever para compartilhar. Um percurso que começa muitas vezes na montanha, passa pelos arquivos e pelo trabalho de campo e termina nas páginas de um livro — onde a memória pode permanecer e alcançar novos leitores.

PINGUE-PONGUE
Uma montanha inesquecível: Monte Roraima
Um lugar de Minas Gerais que todos deveriam conhecer: Santuário do Caraça
Um livro que sempre recomenda: Grande Sertão: Veredas
Um pesquisador que o inspira: Profa. Andréa Zhouri (UFMG)
Campo ou cidade?: Campo
Mochila pronta ou biblioteca?: Mochila
Uma palavra que define a natureza: Grandiosidade
Um sonho que ainda deseja realizar: Conhecer todos os parques nacionais do Brasil
Complete a frase: “Escrever é…” Compartilhar minha visão de mundo.