Lucimar Souza Fernandes – Jornalista

Há perguntas que parecem pequenas, mas abrem portas enormes. “Por quê?” talvez seja uma das primeiras e mais poderosas — perguntas da infância. É pela curiosidade que a criança observa, compara, inventa, experimenta e começa a construir sua própria maneira de compreender o mundo. Para a escritora e ilustradora Ana Elisa Pinho Coelho, essa curiosidade também acabou encontrando um caminho na literatura.

Durante 26 anos, Ana Elisa esteve ligada à educação, principalmente no trabalho com adolescentes, como professora de Arte e coordenadora da Escola Integrada. Embora tenha convivido menos diretamente com crianças pequenas em sua trajetória profissional, a infância esteve presente em seus estudos, na experiência com os filhos e nas observações de crianças próximas. Agora, por meio dos livros, ela encontrou uma forma de realizar um antigo desejo: aproximar-se desse universo que sempre despertou seu interesse.

Em suas duas obras publicadas, “A Transformação da Joana” e “O Grande Evento”, a curiosidade aparece de maneira muito natural. No primeiro livro, a personagem conduz o leitor por perguntas e descobertas ligadas à metamorfose. No segundo, o mistério abre espaço para a imaginação. Ana Elisa conta que não planejou conscientemente fazer da curiosidade o fio condutor de sua produção. As histórias nasceram de temas e da tentativa de imaginar como as crianças viveriam aquelas situações.

“É como se a autora pensasse como uma criança”, explica. A ideia resume bem seu processo criativo: antes de escrever, ela imagina as cenas, os personagens e a reação do pequeno leitor. Depois, trabalha o texto pensando especialmente na primeira infância, entre os dois e os seis anos, recorrendo a rimas e humor.

A experiência como educadora também deixou marcas importantes em sua escrita. Ana Elisa sempre gostou de registrar acontecimentos vividos na escola e chegou a escrever crônicas sobre situações inusitadas que presenciou como coordenadora. Uma experiência escolar especialmente significativa, inclusive, serviu de inspiração para uma história que fará parte de seu próximo livro.

Para ela, estimular a curiosidade é fundamental, sobretudo nos primeiros anos de vida. É nesse período de descobertas que a criança quer conhecer, explorar e criar. Perguntar incessantemente, montar objetos, inventar brinquedos e tentar entender como as coisas funcionam são manifestações de um movimento essencial de aprendizagem e de construção da autonomia.

E a escola, nesse processo, pode ser uma grande aliada. Segundo Ana Elisa, as instituições frequentemente preservam e estimulam a curiosidade infantil, inclusive adaptando seus planejamentos diante das perguntas e interesses dos alunos. Nem todas as curiosidades conseguem ser atendidas, naturalmente, mas muitas atividades pedagógicas acabam nascendo justamente dessa disposição das crianças para explorar.

Uma criança que pergunta, observa e procura respostas também está, para a escritora, construindo o hábito de questionar e formando suas próprias conclusões. A curiosidade conduz à pesquisa e ao questionamento e, sobretudo, oferece liberdade para não aceitar passivamente tudo aquilo que os outros afirmam.

Essa visão dialoga diretamente com a formação de Ana Elisa. Pedagogia e Artes Plásticas caminham juntas em seu processo de criação. Quando escreve uma história, ela já pensa nas palavras, nas possíveis rimas e, simultaneamente, começa a visualizar cenários e personagens. A palavra e a imagem se encontram antes mesmo de o livro chegar às mãos do leitor.

A descoberta da autora foi, aliás, quase tão inesperada quanto as histórias que escreve. Ana Elisa não imaginava que publicaria livros. Gostava de desenhar e criava ilustrações para trabalhos de artesanato que fazia. A personagem Joana, inspirada na joaninha, existia havia muitos anos.

Até que surgiu uma pergunta: como uma criança relacionaria a metamorfose da joaninha a outras transformações? A farinha que vira bolo, por exemplo, também poderia ser entendida como uma espécie de transformação?

Foi desse encontro entre personagem, curiosidade e ideia que nasceu o primeiro livro. Depois vieram a pesquisa sobre publicação, a aproximação com a Editora Cassol e a participação na Edê, Escola de Escritores. O resultado abriu uma nova etapa em sua trajetória. E ela já anuncia o próximo passo: em 2027, pretende publicar seu terceiro livro infantil.

Em uma infância cada vez mais cercada por telas, vídeos e estímulos rápidos, Ana Elisa defende o lugar insubstituível da literatura. Para ela, o livro infantil é uma das bases do conhecimento, da imaginação e da criatividade. Mais do que isso, a leitura compartilhada cria uma conexão especial entre adultos e crianças.

É por isso que, em seu perfil no Instagram, costuma fazer uma pergunta simples aos adultos: “Já leu pra sua criança hoje?”. A pergunta funciona como um lembrete de que ler para uma criança é também criar um momento de vínculo — e talvez reencontrar, dentro de nós mesmos, a criança que continua gostando de ouvir histórias.

No fim, talvez a melhor medida de uma história infantil seja justamente aquilo que acontece depois da última página. Para Ana Elisa, se a criança perguntar “Lê de novo?” ou “Posso ser amiga desses personagens?”, o livro terá cumprido sua missão.

E há algo de muito bonito nessa resposta: o sucesso da literatura, para ela, não está apenas em ensinar ou encantar, mas em fazer com que a criança queira permanecer naquele mundo por mais alguns minutos.

Ana Elisa escreve, ilustra e educa a partir desse território de encontro. Um território onde a pergunta não é um ponto final, mas o começo de uma descoberta. E talvez seja exatamente aí que literatura e infância mais se parecem: ambas nos convidam a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.

PINGUE-PONGUE
Uma palavra que define a infância: Imaginação.
Um livro infantil que recomenda: “Na ponta dos pés”, de Ângela Basso.
Um escritor ou escritora que admira: Maurício de Souza.
Um ilustrador ou ilustradora que admira: Cláudio Martins.
Uma cor que representa a infância: Violeta, sua cor favorita.
Um sonho literário que ainda deseja realizar: Ilustrar e publicar as histórias que já escreveu e levar seus livros para mais crianças, por meio das famílias, escolas e eventos literários.
Complete a frase: “Escrever para crianças é…”: Encantador e mágico!