Lucimar Souza Fernandes – Jornalista

Entre a cultura pop, o horror e o humor, L. H. Vaz constrói histórias com identidade própria e encara a literatura como criação, profissão e paixão. Há escritores que passam anos imaginando o momento em que poderão viver exclusivamente da literatura. L. H. Vaz resolveu experimentar esse caminho — mas sem nenhuma garantia de que ele será definitivo. Afinal, como o próprio escritor reconhece, a literatura é um terreno incerto. A decisão de deixar o emprego formal para dedicar mais atenção às suas histórias veio de uma percepção simples: havia leitores e havia mercado, mas seus livros precisavam de mais tempo e dedicação. O resultado, segundo ele, foi imediato: os leitores começaram a se multiplicar.

A mudança, porém, não transformou a vida do escritor em um conto de fadas editorial. Pelo contrário. L. H. compara a experiência a uma “montanha-russa” e admite que viver da literatura traz desafios que vão muito além da escrita. Seu sustento passa a depender também da resposta dos leitores, das indicações, das novas compras e da capacidade de permanecer presente no mercado. Com bom humor, ele conta que há meses em que se sente “o próprio Stephen King Mineiro” e outros em que volta à realidade da literatura nacional. Entre uma coisa e outra, aprendeu uma lição importante: não é tão bom quanto imagina nos meses excelentes, nem tão ruim quanto parece nos meses difíceis.

Entre a criação e o empreendedorismo

Antes da literatura, sua experiência profissional na indústria, especialmente na área de planejamento de produção, deixou uma marca na maneira como encara os livros. Para L. H., escrever é apenas uma parte do processo. Depois da história pronta, existe toda uma cadeia que precisa ser observada. É como se houvesse dois L. H. Vaz: o escritor sonhador, livre para criar sem pensar em orçamento, e aquele que precisa olhar para tudo o que acontece depois que a história está escrita.

Quando questionado sobre ser escritor ou empreendedor, ele responde com outra dose de humor: é “o escritor que é obrigado a empreender”. E deixa uma ressalva divertida: se um dia grandes editoras como Companhia das Letras ou DarkSide o chamarem, ele aceita ser apenas escritor e deixa a parte empresarial para eles.

Essa visão também aparece quando fala sobre vendas. L. H. reconhece a importância do marketing para fazer seus livros chegarem aos leitores, mas faz questão de não confundir números com qualidade literária. Para ele, exposição e fidelização cumprem papéis diferentes na construção de uma carreira.

Um horror com identidade mineira

Em O Culto Amarelo e A Bruxa de Ouro Preto, L. H. Vaz criou histórias ambientadas em um mesmo universo. As narrativas nasceram do encontro entre duas influências que fazem parte de sua trajetória: a cultura pop e a cultura mineira. A proposta é levar o chamado Horror Pop para o seu próprio “quintal”, como ele carinhosamente define Minas Gerais. O resultado são histórias de terror que não abrem mão da identidade do autor.

Entre suas referências está a Coleção Vagalume, lembrada por ele com entusiasmo, e o cineasta Steven Spielberg, admirado pela capacidade de transitar por gêneros diferentes sem perder sua assinatura. É justamente essa identidade que L. H. procura preservar em suas próprias histórias. Seu processo criativo também tem método: escrever funciona melhor como primeira tarefa do dia, quando está descansado e pode entregar o melhor de si.

Uma influência que veio de casa

Por trás do escritor existe também uma história familiar que ajuda a compreender de onde vieram alguns de seus valores. H. fala com especial reconhecimento sobre a mãe, que trabalhou durante grande parte da vida como faxineira e não concluiu o ensino fundamental. Foi ela, entretanto, quem o incentivou a ler e estudar, convencida de que a educação poderia abrir caminhos.

O escritor atribui a ela grande parte de sua formação. Mas existe outra herança, menos óbvia e igualmente presente em seus livros: o humor. Embora escreva terror, suas histórias também carregam humor e uma certa disposição para rir de si mesmo. Segundo L. H., essa característica veio da mãe, que descreve como uma mulher muito engraçada e de forte influência sobre sua personalidade.

Talvez seja essa mistura que melhor ajude a compreender seu modo de fazer literatura: método sem abandonar a imaginação, empreendedorismo sem perder o prazer de escrever e terror sem abrir mão do bom humor. No fim, a literatura pode ser profissão, mas para L. H. Vaz continua sendo, sobretudo, paixão. Se um dia ela deixar de proporcionar retorno financeiro, ele diz que continuará contando suas histórias.

“O lugar onde minha imaginação ganha forma sem se preocupar com orçamentos.”

PING-PONG | L. H. VAZ

Caderno Literário — Você decidiu deixar o emprego formal para se dedicar à literatura. Em que momento percebeu que escrever deixaria de ser um sonho para se tornar um projeto de vida?

H. Vaz — Então, é algo que ainda não sei se é definitivo. Pois a literatura é bem incerta. Mas o que senti é que minhas histórias tinham público, mercado, mas precisavam da minha atenção. E ainda bem, eu não estava errado. Do momento em que resolvi me dedicar, os leitores se multiplicaram.

Caderno Literário — Essa decisão exigiu coragem e planejamento. Quais foram os maiores desafios no início dessa nova fase e houve algum momento em que você pensou em desistir?

H. Vaz — É uma montanha-russa, acho que ainda estou em um processo de aprender. Para quem é CLT, viver como escritor é um desafio acima de tudo psicológico. Meu ganha-pão depende do quanto o leitor gosta de mim, do quanto ele indica, do quanto ele volta para comprar coisa nova. E não é um mar de rosas se acostumar com isso. Existem meses em que me sinto o próprio Stephen King Mineiro, hahaha, outros em que volto para a realidade dura da literatura nacional. O negócio é entender que existe um meio do caminho: não sou tão bom quanto nos meses bons e nem tão ruim quanto nos meses ruins.

Caderno Literário — Sua formação e sua trajetória profissional contribuíram de alguma forma para a construção da carreira de escritor? Que aprendizados daquela época você ainda leva para o seu trabalho hoje?

H. Vaz — O fato de eu ter me especializado em Planejamento de Produção durante minha carreira na indústria me faz olhar para a cadeia de livros de uma forma menos artística e mais metódica. Isso ajuda! Eu tenho noção de que tenho que ser dois L. H. Vaz: o escritor sonhador que cria histórias sem estar preso a orçamentos e a versão que tem que enxergar toda a cadeia após a história estar escrita.

Caderno Literário — Hoje, olhando para trás, quem é L. H. Vaz: um escritor que empreende ou um empreendedor que encontrou na literatura sua principal forma de expressão?

H. Vaz — Acredito que sou o escritor que é obrigado a empreender. O dia em que a Companhia das Letras ou a DarkSide me chamarem, eu aceito ser só escritor, hahah, e deixo para eles essa parte.

Caderno Literário — Seus dois livros apresentam universos próprios. Como nasceram essas histórias e o que elas revelam sobre você como autor?

H. Vaz — Sim, O Culto Amarelo e A Bruxa de Ouro Preto se passam no mesmo mundinho. E essas histórias nasceram de toda influência da Cultura Pop na minha vida em convergência com a cultura mineira. Eu resolvi misturar esses dois pontos, trazer para o Horror Pop, mas para dentro do meu quintal, que eu tanto amo.

Caderno Literário — Todo escritor costuma carregar referências literárias, culturais e pessoais. Quais autores, experiências ou acontecimentos mais influenciaram sua escrita?

H. Vaz — A minha principal referência é a Coleção Vagalume. Aquilo ali é ouro, tinha que virar série, filme e tudo que pudesse. E, fora da literatura, um cara que sempre admirei foi o Spielberg. Ele conta todo tipo de história, do terror com O Tubarão, aventura com Indiana Jones e Jurassic Park e até o drama absoluto com A Lista de Schindler. Porém, tudo tem a cara dele. Eu faço muita questão que minhas histórias tenham a minha cara.

Caderno Literário — Como é o seu processo criativo? Você segue uma rotina disciplinada de escrita ou acredita que cada livro encontra seu próprio tempo?

H. Vaz — Eu gosto de ser metódico. Escrita para mim só funciona se for a primeira tarefa do dia. Preciso estar descansado para ali entregar o meu melhor.

Caderno Literário — Em um mercado editorial cada vez mais competitivo, escrever bem é suficiente para construir uma carreira? O que você aprendeu sobre a literatura como profissão e como negócio?

H. Vaz — Olha, estou numa marca de aproximadamente 300 exemplares físicos vendidos por mês. Isso não quer dizer que sou bom, quer dizer que meu marketing funciona. Eu não sou melhor do que quem vende menos, eu só estou sendo mais exposto. Qualidade e quantidade não são grandezas que se acompanham tanto. Acredito, sim, que tenho leitores que foram fidelizados e estão me ajudando a crescer por conta da qualidade. Mas o que me fez chegar neles foi o marketing.

Caderno Literário — Além da escrita, quais atividades ocupam sua rotina? Redes sociais, eventos, contato com leitores e divulgação também fazem parte do trabalho de um escritor?

H. Vaz — Eventos principalmente. Costumo dizer que os eventos presenciais são onde eu consigo fidelizar mais o leitor. Eu deixo de ser um cara que escreve para ser um conhecido que foi simpático e atencioso com eles, que escreve. Inclusive é uma dica para quem estiver começando: Bienais, feiras e eventos literários. Esteja nelas!

Caderno Literário — Muitas pessoas sonham em viver daquilo que amam, mas poucas dão esse passo. Que conselho você daria a quem deseja transformar a paixão pela escrita em profissão?

H. Vaz — Vai com calma. Não coloca sua felicidade ancorada nisso. Viver de literatura não é o que me faz feliz. Eu sou feliz e, por causa disso, vivo de literatura. E, se amanhã eu não viver dela, vou continuar feliz fazendo outra coisa. E digo mais… se a literatura parar de dar dinheiro, eu ainda assim vou continuar contando minhas histórias. Sou apaixonado nisso.

Caderno Literário — Ao longo da sua trajetória, você já demonstrou profunda admiração por sua mãe. Que papel ela teve na formação do homem e do escritor que você é hoje?

H. Vaz — Minha mãe trabalhou durante a vida quase toda como faxineira. Não se formou no ensino fundamental. E, mesmo assim, me obrigava a ler, me obrigava a estudar. Ela viu que a educação era o único caminho e me conduziu através dele. Então eu devo 100% a ela.

E tem outra questão que falo pouco. Meus leitores sabem que os meus livros, apesar de serem de terror, são bem-humorados. E essa coisa do humor mais ácido, de rir da própria cara, de ser zombador, veio dela. Minha mãe é uma mulher muito engraçada e me influenciou demais.

Caderno Literário — Para encerrar, gostaria que completasse a frase: “A literatura é…”

H. Vaz — O lugar onde minha imaginação ganha forma sem se preocupar com orçamentos.