A escritora e multiartista mineira afro-indígena do povo Puri, Thaís Alessandra, lança o segundo livro da série literária “Aiyra e o Rio”, intitulado “Aiyra e o Rio II: O Feminino Veste Cocar”.

A obra, voltada ao público leitor a partir dos 12 anos, amplia a saga da protagonista Aiyra e apresenta uma narrativa de caráter afro-indígena, feminista e decolonial.

O lançamento começa pelas escolas públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, por meio de um projeto contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), no Edital 04/2026 – Execução Cultural, categoria Produção Literária, ID 24170. A iniciativa conta com apoio da área de Cultura e Turismo e realização do Ministério da Cultura. Por meio do projeto, os livros serão distribuídos gratuitamente em dez escolas da rede pública da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Do total de exemplares, 5% serão destinados à área de Cultura e Turismo.

Em “O Feminino Veste Cocar”, Thaís Alessandra presta homenagem às mulheres indígenas que, ao longo de gerações, ocuparam espaços de liderança, enfrentaram desigualdades e romperam com estruturas machistas, contribuindo para abrir caminhos para as novas gerações.

O cenário ficcional da obra está situado no Amazonas. Na narrativa, o rio Uaçá estabelece uma ligação entre a nação indígena Zo’é e o nordeste do território dos Jenipapo-Kanindé, no município cearense de Aquiraz. Para a autora, o rio representa um ancestral vivo e uma entidade capaz de romper fronteiras entre povos e territórios.

A nova obra também funciona como um tributo às lideranças femininas indígenas, como majés, cacicas, parteiras, benzedeiras e conselheiras de diferentes povos.

Entre as homenageadas estão a cacica Pequena, do povo Jenipapo-Kanindé, de Aquiraz (CE), e a vice-cacica Sílvia, primeira mulher a ocupar a vice-caciquia e liderança do povo indígena Kaimbé, de Euclides da Cunha (BA). Segundo Thaís, apesar das diferenças culturais entre os dois povos, as lideranças tiveram papel importante na transformação de suas comunidades e na ampliação do espaço de fala, luta e resistência das mulheres indígenas das novas gerações.

A SAGA DE AIYRA

O primeiro volume de “Aiyra e o Rio” foi lançado em 2022, por meio de uma campanha de financiamento coletivo realizada pela própria escritora. A obra chegou à terceira edição em 2024 e atualmente também está disponível gratuitamente em formato de audiobook para pessoas cegas por meio da Biblion – Biblioteca Digital de São Paulo.

A narrativa do primeiro livro é dividida em dois capítulos: “O Silêncio Barulhento de Uaçá” e “A Maratona do Tempo”. A história acompanha Aiyra, uma protagonista afro-indígena que assume o protagonismo de sua própria trajetória em uma narrativa marcada por questões feministas e decoloniais.

No primeiro capítulo, Aiyra desenvolve uma relação de amizade com o rio Uaçá, apresentado a ela pelo pai, um grande pescador indígena. É por meio dele que a menina aprende a ouvir o silêncio das águas e a compreender sua ligação com a natureza.

Ao longo da história, Aiyra também conhece os costumes das mulheres de sua nação indígena e recebe ensinamentos do cacique Ajuricaba, homem mais velho e respeitado por seu povo.

A protagonista passa ainda por experiências dolorosas, incluindo o enfrentamento do racismo estrutural, que interfere na construção de sua identidade e a leva a questionar partes de sua própria história. Ela também acompanha o sofrimento do amigo Arthur, que enfrenta discriminação por ter uma mãe diagnosticada com transtorno bipolar.

No segundo capítulo, a narrativa apresenta a chegada de Cauê, irmão de Aiyra, ao mundo pelas mãos de dona Iracema, uma das parteiras mais experientes de seu povo e responsável também pelos partos da mãe de Aiyra, Anahi, da própria protagonista e de outras mulheres da aldeia.

Aos 12 anos, Aiyra decide construir uma canoa para se aventurar com seu amigo Uaçá. A decisão provoca questionamentos sobre se sua atitude representa apenas a rebeldia de uma adolescente ou se existe algo maior por trás daquela escolha.

É justamente essa pergunta, deixada aos leitores ao final do primeiro volume e alimentada ao longo de três anos, que “Aiyra e o Rio II: O Feminino Veste Cocar” busca responder, dando continuidade à trajetória da personagem e ampliando a discussão sobre ancestralidade, identidade, resistência e protagonismo feminino indígena.