Claudia Zanol – Professora da Rede Estadual de Esmeraldas
A concordância verbal constitui um dos pilares da organização sintática da língua portuguesa, estabelecendo a relação de concordância entre o verbo e o sujeito da oração. Essa relação não se limita a uma simples adequação formal, mas envolve fatores semânticos, estilísticos e até mesmo discursivos, especialmente em contextos de variação linguística.
Fundamentos da Concordância Verbal
Em termos gerais, a concordância verbal determina que o verbo deve ajustar-se ao sujeito em número e pessoa. Entretanto, essa regra básica pode sofrer interferências decorrentes da posição do sujeito, de sua estrutura interna e de elementos de natureza semântica.
Exemplo:
O pesquisador analisa os dados.
Os pesquisadores analisam os dados.
Concordância com Sujeito Simples e Deslocamentos Sintáticos
Quando o sujeito é simples e está em posição canônica (antes do verbo), a concordância ocorre de maneira direta. No entanto, em estruturas com inversão sintática (ordem indireta), pode haver maior propensão ao erro, sobretudo na linguagem oral.
Ocorreram diversos problemas durante a análise.
Faltam argumentos consistentes na tese apresentada.
Sujeito Composto: Hierarquia e Proximidade
Com sujeitos compostos, a concordância tende ao plural. Contudo, em determinados contextos, especialmente quando os núcleos estão pospostos ao verbo ou ligados por termos como “ou”, pode ocorrer a chamada concordância por proximidade.
O diretor e os professores avaliaram o projeto.
Chegou o professor e os alunos. (concordância com o núcleo mais próximo – uso mais frequente na oralidade)
Além disso, quando os núcleos do sujeito expressam ideia de exclusão:
Pedro ou João resolverá a questão.
Concordância Ideológica (Silepse)
A concordância pode ocorrer não com a forma gramatical, mas com a ideia subentendida. Trata-se da concordância ideológica ou silepse.
O povo brasileiro são resilientes.
(Neste caso, o verbo concorda com a ideia de plural implícita em “povo”.)
Expressões Partitivas e Quantitativas
Estruturas como “a maioria de”, “grande parte de”, “um grupo de” admitem dupla concordância: com o núcleo do sujeito ou com o termo especificador.
A maioria dos candidatos aprovou a proposta.
A maioria dos candidatos aprovaram a proposta.
A escolha pode refletir maior formalidade (singular) ou ênfase no conjunto (plural).
Verbos Impessoais e Restrições de Concordância
Certos verbos apresentam comportamento especial por não admitirem sujeito:
Verbo “haver” (sentido de existir)
Há muitas possibilidades de análise.
Havia incoerências no texto.
Verbo “fazer” (tempo decorrido)
Faz dez anos que o estudo foi publicado.
Nesses casos, o verbo permanece invariável na 3ª pessoa do singular.
Concordância com Porcentagens, Frações e Coletivos
A concordância pode variar conforme o elemento enfatizado:
30% da produção foi comprometida.
30% dos trabalhadores foram afetados.
Já os substantivos coletivos mantêm o verbo no singular, embora o plural seja possível em contextos de silepse:
A multidão invadiu o espaço.
A multidão invadiram o espaço. (ênfase nos indivíduos)
Concordância em Estruturas Complexas
Em orações com sujeito oracional ou infinitivo:
É necessário estudar mais.
Convém analisar os dados com cautela.
Além disso, construções com “se” podem apresentar diferentes classificações:
Vendem-se livros. (voz passiva sintética – concordância com o sujeito “livros”)
Precisa-se de funcionários. (índice de indeterminação do sujeito – verbo no singular)
Variação Linguística e Norma Culta
Embora a norma-padrão estabeleça regras rígidas de concordância, a língua em uso apresenta variações, especialmente na oralidade. Estruturas como:
“A gente vamos”
“Os menino foi”
são comuns em determinados contextos sociolinguísticos, mas não são aceitas na norma culta formal.
A concordância verbal vai além da aplicação mecânica de regras: ela exige a compreensão da estrutura da frase, da relação entre seus termos e do contexto comunicativo. Dominar seus usos, inclusive os casos especiais e as possibilidades de variação, é essencial para uma produção textual precisa, coerente e adequada às exigências formais da língua portuguesa.
Aplicar adequadamente a concordância é fazer uso correto da norma-padrão na língua portuguesa.

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