Um filho não se perde fora de casa, mas quando não é encontrado dentro dela. Acreditar que são os amigos da rua, a internet ou o mundo que “desviam” os filhos já é algo considerado confortável, feito para aliviar consciências, mas não muda a realidade que, muitas vezes, o problema está no próprio lar.

Para a neurociência – área que estuda o sistema nervoso, suas funcionalidades e influências em aspectos comportamentais e emocionais – o cérebro se organiza a partir das primeiras relações no ambiente familiar, responsável por orientar escolhas, limites e vínculos. Desta forma, um filho não se perde em más companhias e, sim, pela falta de referência, escuta e segurança emocional em casa.

O cérebro social é programado para se vincular, então, quando não há diálogo, presença afetiva ou previsibilidade emocional, instala-se um estado silencioso de carência neuroafetiva. A ausência reorganiza o funcionamento cerebral e o jovem passa a buscar fora aquilo que deveria ter sido consolidado dentro: reconhecimento, acolhimento, identidade. Ninguém abandona um ambiente em que é visto, ouvido e amado. Quando o lar se torna apenas um espaço físico  sem trocas, sem tempo, sem afeto  o cérebro entra em modo de sobrevivência emocional e se adapta.

O mito da autoridade baseada no medo ou no excesso de controle também deve ser desconstruído. A neurociência mostra que cérebros educados apenas pela punição não desenvolvem consciência, apenas estratégias de fuga. Já o córtex pré-frontal, responsável por decisões éticas e autocontrole, somente amadurece em ambientes com limites firmes e afeto, e não, ameaças constantes.

Os pais não precisam ser heróis, entretanto, devem ser referência emocional estável. A família precisa ser uma figura de presença, com a capacidade de pedir desculpas, de ouvir, e orientar, sem humilhar ou interromper, ou seja, um espaço seguro, de afeto e aprendizado. Educar é, antes de tudo, habitar emocionalmente a vida do outro.

Na visão de nomes como Daniel Siegel, o desenvolvimento do cérebro da criança está diretamente ligado às relações afetivas construídas dentro de casa. Ele defende que o vínculo seguro com os pais ou responsáveis ajuda a organizar emoções, melhorar a tomada de decisões e fortalecer a autoestima. Ou seja, quando há presença emocional, o jovem se sente mais seguro e menos vulnerável a influências externas negativas.