A campanha “Setembro Amarelo” apresenta um propósito nobre e urgente: conscientizar a sociedade sobre a prevenção do suicídio.

As ações focam nas dores psíquicas individuais, como a depressão, a ansiedade e o isolamento.

Contudo, também existe um fantasma silencioso, assolador da economia brasileira, devastando a saúde mental de milhares de empreendedores, sendo raramente considerado pela saúde pública: o suicídio empresarial. Infelizmente, atrás de cada CNPJ baixado ou em processo de liquidação, existe ainda um CPF sufocado.  O “suicídio empresarial” ocorre quando a gestão se torna insustentável, a ponto de consumir todos os recursos do negócio e os bens pessoais do proprietário. A verdade é que a falência de um negócio nunca é apenas um evento contábil ou um número frio em planilha.

O encerramento das atividades de qualquer empresa é traumático, sendo arrastado por dívidas, processos e frustrações. O impacto psicológico sobre o empresário é devastador. Afinal é a morte de um sonho, a perda da identidade social e, em casos extremos, gatilho para se atentar contra a própria vida.

As últimas pesquisas sobre a saúde financeira empresarial no Brasil são alarmantes, porém pouco discutidas. Para se ter uma ideia, os levantamentos sobre indicadores de inadimplência e falências da Serasa Experian apontam que os pedidos de recuperação judicial e falências registraram altas expressivas, decorrentes dos juros elevados, restrição ao crédito e a desaceleração do consumo.

No caso do mercado mineiro, lamentavelmente, o cenário apresenta a mesma dramaticidade. O empreendedorismo de pequeno e médio porte é um dos pilares econômicos. Entretanto, vale ressaltar que os pequenos comércios, prestadores de serviços e indústrias locais estão sucumbindo ao peso de custos operacionais crescentes e à falta de capital de giro.

Muitas vezes, o empresário brasileiro está solitário na tomada de decisão, passando a viver sob um estado de estresse crônico. A pressão em garantir a folha de pagamento, o medo do estigma social do fracasso e a cobrança implacável de credores e do Fisco causam um ciclo tóxico. Além disso, o sono desaparece, o isolamento aumenta e uma paralisia na capacidade cognitiva para encontrar saídas. Quando o negócio morre, o empreendedor sente que morreu junto.
É preciso entender por que isso acontece para reverter esse cenário.

Na maioria das vezes, o colapso não decorre de má-fé e, sim, da falta de cultura de gestão preventiva e da confusão entre a saúde do negócio e a vida pessoal. O gestor tende a empurrar os problemas financeiros com a barriga, recorrendo a empréstimos bancários com juros abusivos para cobrir buracos operacionais, criando uma bola de neve incontrolável. Algumas dicas podem contribuir para evitar que o sonho do próprio negócio se transforme em uma tragédia pessoal e financeira:

Separação Rígida entre CPF e CNPJ: Misturar contas pessoais com as da empresa é o primeiro passo para o caos. O empresário deve estabelecer um pro-labore fixo e jamais utilizar o caixa da empresa para despesas familiares.
Planejamento de Fluxo de Caixa Diário e Projetado: Gestão não se faz por intuição. É indispensável ter previsibilidade de receitas e despesas por pelo menos três a seis meses, permitindo ações corretivas, antes do esgotamento do caixa.

Profissionalização e Busca de Ajuda Externa: Reconhecer os limites do próprio conhecimento é sinal de maturidade. Apoiar-se em consultorias, entidades de classe como SEBRAE, contadores e advogados especializados pode salvar o negócio antes da insolvência.Desmistificação do Fracasso e Saúde Mental: Um negócio falido não define o valor do empresário. É crucial cuidar da saúde mental, praticar o autocuidado e buscar apoio psicológico quando perceber que a carga emocional ficou insuportável.

A cor amarela no mês de setembro alerta para focar o olhar na preservação da vida. O governo deve se atentar para o fato que cuidar das empresas, promover um ambiente de negócios mais sustentável e propiciar suporte emocional aos geradores de emprego também requer políticas públicas como uma forma profunda de salvar vidas. As falências podem ser superadas, novos negócios podem ser reconstruídos, porém, a vida é um patrimônio irrecuperável.

Autora de diversos livros publicados, Sônia Jordão acaba de lançar “Liderança de Máximo Impacto – Gestão, Liderança de Equipes e Escolhas para Escalar no Mercado B2B”, obra que aborda gestão, liderança de equipes e escolhas estratégicas para empresas que buscam crescer de forma sustentável.

A experiência da especialista reforça uma questão importante: antes que uma empresa chegue ao ponto de insolvência, é necessário reconhecer os sinais de alerta, rever decisões e buscar apoio. Liderar não significa enfrentar todos os problemas sozinho. A profissionalização da gestão, o planejamento e a capacidade de fazer escolhas no momento certo podem ser determinantes para preservar tanto a empresa quanto a saúde de quem está à frente dela.