Ângela Mathylde Soares – Neurocientista, psicanalista e psicopedagoga
O caso do adolescente brasileiro, que matou os pais e o irmão de 3 anos, mobilizou o país pela crueldade e os motivos para tamanha violência. Posteriormente, foi descoberto que a namorada – de 15 anos – planejava o mesmo, e, agora, ambos estão presos. O crime teria sido premeditado, a partir da proibição dos pais dele de se encontrar com a namorada virtual, residente em Mato Grosso, enquanto ele, 14 anos, estava no Rio de Janeiro. Os dois já se conheciam há seis anos, devido a jogos online, até que, no último ano, as coisas teriam ficado mais sérias, despertando o interesse.
A polícia informou que a ação foi inspirada em um jogo de videogame, conhecido por eles e, apesar de não o jogarem, usavam o nome dos personagens para se referir aos familiares. A história de terror retrata um casal de irmãos em uma relação incestuosa que assassina os pais. Todo o jogo exibe cenas violentas e de canibalismo, sendo considerado “tão pesado”, a ponto de ter sido, inicialmente, proibido em países como Austrália e, depois, liberado para maiores de 18 anos.
As conversas entre os dois eram focadas em assuntos violentos, através do consumo desse tipo de conteúdo na internet, relacionado à temáticas de crimes familiares, uso de armas, luvas para não deixar as digitais e, até mesmo, maneiras para ocultar corpos.
Os efeitos dos “games” no cotidiano dos adolescentes, há muito tempo, é uma polêmica em discussão e, infelizmente, ainda sem um consenso. Algumas pessoas são contra esse tipo de entretenimento, sobretudo jogos violentos, extremamente prejudiciais para a saúde mental, estimulando a agressividade e influenciando a adoção de hábitos inadequados. Outros afirmam que esses jogos não têm capacidade para afetar a vida real dessa maneira.
A verdade é que, até mesmo alguns estudos, conduzidos por profissionais, revelaram conclusões incertas. Os resultados isentaram os jogos eletrônicos de qualquer relação com violência, ou colocando a culpa pela elevação de casos, como a depressão, ansiedade, estresse, menor empatia, insensibilidade emocional e distúrbios do sono, na conta dos mesmos.
Outra análise importante está na relação da forma como o adolescente foi influenciado e pressionado pela namorada. Ela teria sugerido que o garoto tomasse uma atitude, mostrando que “era homem”, para vê-la, algo considerado pela polícia como chantagem emocional.
Dessa forma, durante toda a ação, ela o acompanhou, dando instruções sobre como proceder e, no final, expressou orgulho. Já ele, afirmou que “faria tudo o que ela mandasse”. A chantagem é um tipo de comportamento manipulador para controlar alguém através de ameaças, culpa ou medo, explorando sentimentos da vítima para conseguir o que se deseja.
O sentimento de culpa e a necessidade constante de aprovação são sinais frequentes, sentidos pelas vítimas, enquanto as reações desproporcionais, quando não se consegue o que deseja e o uso do passado são indícios que o chantagista está insatisfeito, deixando o outro inseguro para mantê-lo sob controle.
A adolescência precisa de um adulto para ser regulada. Em um mundo tão tecnológico, os pais devem estar cada vez mais atentos aos interesses e comportamentos dos filhos. Pode ser difícil iniciar uma conversa, mas criar um ambiente seguro garante aos adolescentes, maior conforto para que compartilhem informações.
Muitos pais têm medo de invadirem a privacidade, contudo, vigiar como a internet está sendo usada, principalmente por menores de idade, não deve ser considerada uma apoderação, e sim, uma forma de protegê-los de conteúdos considerados impróprios, e até mesmo, pessoas mal intencionadas.
O não também é necessário. Quando o limite não é simbolizado na infância, passa a ser vivido como ataque, ou seja, o adolescente decide aniquilar antes de ser aniquilado. Os pais precisam entender que afeto não significa deixar tudo passar e que educação sem regras é uma combinação explosiva.
Assim, limite também é amor e educar é frustrar, uma emoção importante para o desenvolvimento do grupo, que segundo a neurociências, ainda não possui regulação emocional, julgamento moral e sentimentos de empatia completamente formados nesta fase, devido ao córtex pré frontal.
Os pais não devem desejar que os filhos tenham atitudes que ainda não possuem capacidade para ter, ou seja, devem oferecer apoio. A frustração sem elaboração é problemática e a ausência do remorso não deve ser considerada normal.
O acompanhamento psicológico também é sempre uma opção, sendo extremamente eficiente para controlar casos considerados mais simples aos mais extremos, como esse.

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