Ângela Mathylde Soares – Neurocientista, psicanalista e psicopedagoga

Existe cirurgia para depressão? Parece incrível, mas por muito tempo, a ideia era estranha. Contudo, recentemente, uma colombiana de apenas 34 anos passou pelo procedimento para reverter uma depressão resistente.
Lorena Rodríguez viveu mais de duas décadas com crises de ansiedade e episódios depressivos. A condição não melhorava com tratamentos. Ela optou por se tornar a primeira pessoa no mundo a passar pela cirurgia de estimulação cerebral profunda com quatro eletrodos. A depressão resistente é decorrente de transtorno depressivo que não responde a maior parte dos tratamentos convencionais, como a prescrição de medicamentos e psicoterapia. Desta forma, mesmo com cuidados adaptados, o caso não apresenta evolução, aumentando o sofrimento.

Normalmente, a condição é causada por fatores como genética, problemas de comunicação entre os neurônios, algum tipo de trauma, a forma como o corpo reage a medicamentos e outras comorbidades – por exemplo, doenças capazes de agravar os efeitos da depressão. A sensação para Lorena era que vivia no piloto automático, sentindo uma sensação constante de tristeza e ansiedade, até mesmo, em momentos que deveriam ser felizes. Ao longo do período em que buscou tratamento, acabou consumindo mais de cinco tipos de antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor, tentou terapias, meditação, medicina funcional, práticas espirituais e mudanças de país, conseguindo somente alívio temporário.

A cirurgia acabou sendo descoberta como uma possibilidade, por acaso, depois de uma consulta da sobrinha de Lorena ao neurocirurgião responsável pelo procedimento, conhecido por tratar casos de transtornos de humor. A intervenção ocorreu em Bogotá, capital da Colômbia, implantando eletrodos em áreas do cérebro, ligados à tristeza profunda e áreas do pensamento racional e estruturas emocionais. O processo tem como base os exames identificando os locais certos para estimulação, adaptado conforme a necessidade do caso.

Lorena se tornou a primeira pessoa a tratar a depressão resistente com cirurgia, obtendo sucesso em meio à preocupação. Os primeiros dias foram marcados por dores de cabeça e cansaço. Ela definiu as mudanças como “voltar a ver a luz”.

Sentir dor ou desconforto nunca é bom, mas, quando isso permanece por longos períodos de tempo, ocorrência crônica como essa, é natural a pessoa se sentir ainda mais abalada pela experiência, sendo difícil ver uma solução, uma luz no fim do túnel, situação que intensifica os sintomas. A depressão é uma das patologias mais comprometedoras da mente, sendo considerada o mal do século 21, contudo, apresenta diferentes níveis de gravidade, interferindo na maneira como o indivíduo será tratado. Na maioria das vezes, quando existe o interesse e o cuidado para seguir recomendações de especialista, os pacientes apresentam melhoras, porém, a depressão resistente é um caso à parte.

O problema é pouco conhecido, apesar de não ser exatamente muito comum. Para se ter uma ideia, um estudo em quatro países da América Latina estima que apenas no Brasil, aproximadamente 40,4% dos diagnosticados com depressão, apresentam caráter resistente com os mesmos sintomas da tradicional – ou seja, tristeza persistente; perda de prazer ou interesse em atividades; fadiga; falta de energia; dificuldade para se concentrar e mudanças no sono e apetite.

A depressão sempre deve ser tratada, dessa forma, sendo importante que, em caso de suspeita, a pessoa deve procurar um consultório psicológico para avaliação e acompanhamento profissional. A valentia de Lorena abriu espaço para novas evoluções na medicina e esperança para quem deseja retomar um cotidiano mais confortável consigo mesmo e com o mundo.