Entre as memórias afetivas da infância, a experiência de professor e o prazer de brincar com as palavras, o escritor constrói histórias que convidam crianças e adultos a olhar o mundo por outras perspectivas.

Antes de se tornar escritor, Jonatas Stocler foi um menino que gostava de ouvir histórias. O pai contava narrativas à beira da cama e durante as viagens em família. O primeiro livro,

A Fadinha que Tinha Ideias, chegou pelas mãos da mãe e foi lido na companhia dela. Assim, muito antes de pensar em escrever, Jonatas descobriu que os livros podiam ser espaços de afeto, presença e compartilhamento. A escrita veio mais tarde, quando percebeu que aquelas histórias que já faziam parte de sua vida poderiam alcançar outras crianças. Professor, pai e escritor, ele encontrou na literatura infantil uma maneira de reunir experiências pessoais, observações do cotidiano e o encantamento que acompanha uma boa narrativa.

A relação com a infância, porém, não começou nos livros. Em 2008, durante a graduação em Pedagogia, Jonatas desenvolveu um trabalho sobre Brincar, Aprendizagem e Cultura. O interesse permanece vivo até hoje. Para ele, brincar não é uma atividade menor ou um intervalo entre aprendizagens: é uma das maneiras pelas quais a criança conhece o mundo, experimenta papéis, estabelece relações e desenvolve a imaginação.“Contar uma história também é brincar”, observa o escritor, que vê nas palavras, nos sons, nas imagens e nas emoções possibilidades de aproximação com o universo infantil.

Um professor que continua contando histórias

A experiência em sala de aula alimenta boa parte de sua produção literária. Jonatas conta que, certa vez, estava parado em um sinal de trânsito quando uma antiga aluna, já adolescente, colocou a cabeça pela janela do carro e lhe fez uma pergunta inesperada: “Professor, você ainda conta histórias?”.

A lembrança permaneceu porque revelou como aquele gesto de contar histórias havia marcado a memória da estudante. Para ele, a cena também traduz a ligação entre a docência e a literatura: contar histórias sempre foi uma de suas maneiras de ser professor. O convívio diário com as crianças funciona como um campo permanente de observação. Uma fala, uma pergunta, uma brincadeira ou uma situação corriqueira podem se transformar no ponto de partida de uma narrativa.

É assim que pessoas e experiências da vida real encontram espaço na ficção, sem que os personagens sejam simples reproduções de quem os inspirou. Essa mistura aparece em seus três livros: A Caixa Mágica, Sossega, menina! e Ana. Embora cada obra tenha sua própria origem, o autor reconhece um fio que as aproxima: o brincar, o lúdico e a tentativa de enxergar o mundo a partir da criança.

Quando a agitação vira história
Em Sossega, menina!, a protagonista Bia é uma criança cheia de energia, que brinca, conversa e inventa histórias. A inspiração veio da convivência de Jonatas com sua filha Rebeca. Curiosamente, o título nasceu antes da personagem: a frase “Sossega, menina!” era tão repetida em casa que acabou despertando a ideia de transformá-la em livro.

A história diverte, mas também provoca uma reflexão sobre o olhar dos adultos diante da infância. Aquilo que se costuma chamar de agitação pode ser uma forma de explorar o ambiente, expressar sentimentos e buscar compreensão. Antes de rotular ou tentar enquadrar a criança em expectativas adultas, o escritor propõe uma mudança de perspectiva: procurar entender o que ela está tentando comunicar.

Por isso, o livro conversa tanto com as crianças quanto com os adultos que compartilham a leitura. Enquanto a pequena leitora ou o pequeno leitor se reconhece em Bia, mães, pais e educadores podem se perguntar se estão realmente ouvindo as crianças.

Em A Caixa Mágica, o foco se desloca para a solidariedade e a partilha. Lucas começa acumulando brinquedos e acreditando que a caixa fica melhor quanto mais cheia estiver. Ao longo da narrativa, descobre que compartilhar pode trazer uma felicidade diferente daquela proporcionada pela posse. A magia, explica Jonatas, não está propriamente na caixa, mas na transformação do menino, que aprende a olhar para o outro.

Já Ana aborda a construção da identidade. A protagonista se incomoda por ser “somente Ana”, enquanto parece encontrar nas outras meninas que têm o mesmo nome alguma característica especial. Aos poucos, começa a descobrir aquilo que a torna única. A inspiração também tem raízes familiares: a mãe do escritor se chama Ana.
Um livro convida a criança a olhar para o outro; o outro, a olhar para si mesma. Em ambos, a literatura abre espaço para descobertas que vão além da história narrada.

Uma boa história vem primeiro
O cuidado com a criança também orienta a maneira como Jonatas compreende a literatura infantil. Para ele, escrever para esse público não significa simplificar tudo ou oferecer uma história menor. É preciso conhecer a linguagem, o humor, o ritmo e as curiosidades da infância, sem subestimar a capacidade de compreensão dos pequenos leitores.
Essa concepção aparece de maneira especial quando o assunto é a relação entre o professor e o escritor. Jonatas reconhece que o educador pode desejar ensinar alguma coisa, enquanto o escritor precisa, antes de tudo, contar uma boa história. E não vê contradição nisso.

Sua escolha é começar pela narrativa, não pela lição que ela poderia transmitir. Depois da leitura, podem surgir conversas, reflexões, brincadeiras e até uma aula. Mas a experiência literária não precisa nascer subordinada a um objetivo pedagógico. As ilustrações também participam desse processo criativo. Jonatas costuma imaginar personagens, cenários e cenas enquanto escreve, compartilhando algumas indicações com os ilustradores. Ao mesmo tempo, valoriza a liberdade artística desses profissionais e as surpresas que podem acrescentar ao texto.

Há ainda um detalhe divertido nessa parceria: por sugestão de sua filha mais velha, ele pede que os ilustradores escondam nas páginas algum produto de uma empresa imaginária chamada Sol, que, segundo a brincadeira familiar, fabrica todas as coisas do mundo. Quando o livro chega, a família procura o elemento escondido e nem o próprio autor sabe onde ele está!

A brincadeira acaba se estendendo aos leitores, que também são convidados a explorar as ilustrações em busca desse pequeno segredo. Talvez seja uma boa síntese do que Jonatas espera da literatura: uma experiência que desperte curiosidade, provoque descobertas e permita que cada criança participe da história à sua maneira.
Ao recordar a própria infância, o escritor conta que, depois de assistir a um filme, ler um livro ou ouvir uma narrativa, costumava escolher um personagem e declarar: “Eu sou esse!”.

É justamente essa identificação que deseja despertar em seus leitores. Mais do que recordar todos os acontecimentos de uma história, uma criança pode guardar a sensação de ter vivido aquela aventura junto com os personagens.
E, quando isso acontece, a literatura deixa de estar apenas nas páginas. Passa a fazer parte de quem lê.

PINGUE-PONGUE

Um livro que gostaria de ter escrito: O Professor que Nunca Saiu da Quinta Série.
Um escritor que gostaria de conhecer: C. S. Lewis.
Um personagem inesquecível: Aragorn, de O Senhor dos Anéis.
Uma palavra que define literatura: Fantástico.
Escrever é… Fantástico.