Em Ribeirão das Neves, o empreendedorismo feminino não é apenas um número em uma planilha de crescimento de 14,09%.
Ele tem nome, voz e histórias de resiliência que ecoam pelos bairros da cidade. Hoje, com cerca de 27,4 mil MEIs ativos, o público feminino representa 58% da força empreendedora local.
Por trás desses dados, estão mulheres que decidiram “dirigir a própria vida” após grandes rupturas.
O fato de Ribeirão das Neves ser a segunda cidade em Minas Gerais com maior crescimento na abertura de MEIs não é obra do acaso. Esse fenômeno reflete dois movimentos simultâneos:
- A Descentralização e Necessidade: O desemprego acumulado nos últimos anos forçou a população a buscar alternativas dentro da própria cidade, evitando o deslocamento para a capital.
- Aposta na Desburocratização: A atuação da Sala Mineira desde 2018 reduziu etapas e agilizou prazos, permitindo que a “demanda reprimida” de mulheres que já atuavam informalmente encontrasse um caminho rápido para a legalidade.
Esse crescimento superior a 14% em relação ao ano anterior reposiciona o município de um polo dormitório, para um vibrante polo produtor de microempreendedores que, apesar de iniciarem por necessidade, estão moldando uma nova identidade econômica para Ribeirão das Neves.
Do “Fundo do Poço” ao Tapete de Yoga
A trajetória de Amélia Mara Teixeira Veríssimo, de 42 anos, é um exemplo de como a necessidade pode se tornar um propósito. Em 2019, diante de um divórcio doloroso e do isolamento da pandemia, ela viu sua saúde mental colapsar. “Não teve nenhuma fada madrinha ou príncipe encantado num cavalo branco pra me resgatar. Fui eu mesma ou o yoga”, conta Amélia.
Ex-engenheira de trânsito da prefeitura, ela recalculou sua rota e buscou na yoga não apenas a cura pessoal, mas uma nova profissão. Hoje, proprietária de seu próprio estúdio, ela foca em democratizar a prática para o cidadão comum, combatendo preconceitos de que a modalidade seria apenas para elites ou ligada a religiões. Para Amélia, o empreendedorismo feminino na cidade cresce, mas carece de uma rede de apoio pública mais robusta para que essas mulheres se sintam seguras ao dar o próximo passo.
Da Venda “Sacoleira” à Loja Própria
Já Andreia Cristina de Souza, de 45 anos, trilhou o caminho do comércio varejista, um dos setores mais fortes entre as mulheres nevense. Ela começou com um investimento modesto de cerca de R$ 1.000,00 (mil reais), atuando como “sacoleira” de porta em porta. Mesmo após enfrentar calotes iniciais que a forçaram a retornar ao emprego formal, ela não desistiu.
Com persistência e economia, Andreia conseguiu realizar a compra das mercadorias e abrir sua loja física à vista. Hoje, ela lida com os desafios da era digital e da concorrência acirrada, mas mantém a mesma garra do início. “O trabalho é árduo e, às vezes, as pessoas acham que ser patrão é ficar sentado”, desabafa, reforçando que a constância é o segredo para sobreviver às crises pós-pandemia.
A Barreira Emocional e a Rede de Apoio
O relato dessas mulheres confirma o diagnóstico de Alexandre Galinari, coordenador da Sala Mineira do Empreendedor de Ribeirão das Neves: para ele, o maior desafio, muitas vezes, é a autoconfiança. “A mulher costuma pesquisar, planejar e refletir muito sobre os riscos antes de abrir a empresa”. Essa prudência, embora positiva para a gestão, pode se tornar uma barreira emocional se não houver suporte.
Para que essas barreiras sejam superadas, a Sala Mineira atua como uma bússola, oferecendo desde a orientação gratuita para abertura de CNPJ até consultorias de modelagem de negócios em três encontros. O espaço também conecta as empresárias a programas como o “SEBRAE Delas”, eventos de networking como o “Summit Mulher” e “Outlet dos Empreendedores”.
A Sala Mineira atua tanto na participação direta quanto no suporte às ações, auxiliando na divulgação, apoio logístico, panfletagem, inscrições e mobilização das empreendedoras. Essas iniciativas são fundamentais para incentivar o networking, a capacitação e o fortalecimento dos negócios liderados por mulheres no município.
Um Convite ao Movimento
As histórias de Amélia e Andreia deixam lições claras para quem deseja começar: capacitação e parcerias. “Ninguém cresce sozinho. Busque se cercar de mulheres que deram certo”, aconselha Amélia.
Ribeirão das Neves vive um momento de expansão, tornando-se a segunda cidade de Minas Gerais que mais cresceu na abertura de MEIs recentemente. Alexandre Galinari, destacou a importância do protagonismo feminino nos negócios: “Não tenham medo de começar. A mulher é capaz, competente, organizada e tem todas as condições de crescer e conquistar seu espaço no empreendedorismo. Empreendam, continuem acreditando no potencial de vocês e venham crescer junto com a cidade.”
Por: Marcos San Juan



Deixar um comentário