O Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, inaugurou na última quinta-feira (16) a exposição temporária “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha”. A mostra promove um encontro sensível entre fotografia, bordado e memória, reunindo obras do fotógrafo Lori Figueiró e da bordadeira, aquarelista e quilombola Aline Gomez Ruas, em uma homenagem poética às rezadeiras e curandeiras do Vale do Jequitinhonha.
Com 52 fotografias bordadas, além de estandartes e aquarelas, a exposição revela o universo simbólico e afetivo das benzedeiras — mulheres que, por meio de rezas, gestos e saberes transmitidos de geração em geração, preservam práticas ancestrais de cuidado. As imagens foram registradas ao longo do vale formado pelas águas do Rio Jequitinhonha e pelas estradas que levam às casas dessas guardiãs de tradições.
Antes de chegar a Cordisburgo, a mostra foi apresentada em Belo Horizonte, em setembro de 2025, no Centro de Arte Popular (CAP). Agora, passa a integrar a programação cultural do museu, ampliando o diálogo entre arte, memória e cultura popular.
O trabalho fotográfico de Lori Figueiró se destaca pela proximidade com as personagens retratadas e pela estética que valoriza expressões, gestos e modos de vida do Vale do Jequitinhonha. Fotografando apenas com uma câmera, sem lentes adicionais, o artista constrói uma narrativa visual marcada pela simplicidade técnica e pela intimidade com as pessoas e os lugares registrados.
As imagens ganham novas camadas de sentido com a intervenção de Aline Gomez Ruas, que borda sobre as fotografias e cria aquarelas inspiradas nas histórias dessas mulheres. Seus fios e cores ampliam o olhar sobre as imagens, transformando-as em territórios de memória, afeto e ancestralidade. O gesto de bordar sobre a fotografia estabelece um diálogo entre o visível e o invisível, costurando narrativas de vida e espiritualidade.
A exposição integra ainda um acervo de memória em expansão, que reúne mais de duas mil fotografias editadas, centenas de fotografias bordadas, além de registros em áudio e mais de cinco horas de vídeos. O conjunto forma um verdadeiro relicário de imagens e vozes dedicado a tornar visível o ofício das benzedeiras e a força cultural do Vale do Jequitinhonha.
Ao reunir arte, espiritualidade e tradição, “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha” convida o público a conhecer histórias de mulheres que transformam palavras em cuidado e gestos em cura — guardiãs de saberes que seguem vivos no território e na memória coletiva.
Lori Figueiró, natural de Diamantina, é fotógrafo e poeta com vasta obra dedicada à cultura do Vale do Jequitinhonha. Autor de livros como “Cotidianos no Sagrado do Vale”, “Mulheres do Vale Substantivo Feminino” e “Benzedeiras do Jequitinhonha” (em parceria com Aline Ruas), ocupa a cadeira 25 da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha.
Aline Gomez Ruas é bordadeira, aquarelista e benzedeira, mulher quilombola do Arraial dos Crioulos. Herdeira das práticas de sua mãe e avó, desenvolve bordados e projetos que entrelaçam arte, memória e ancestralidade. Em 2021, criou, junto a Lori Figueiró, o projeto “Guardiãs das Palavras Benditas”, que vem registrando e celebrando a presença das benzedeiras do Vale.
SERVIÇO
Exposição: “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha”
Período de visitação: Até 14/06
Horário: Terça a domingo, das 9h30 às 17h
Local: Museu Casa Guimarães Rosa (Rua Padre João, 744 – Cordisburgo/MG)

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