Juliana Guimarães, oftalmologista e diretora do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães. Um acidente de trânsito significa um grande impacto entre os envolvidos e muda a vida deles para sempre. As campanhas de alerta servem para conscientizar sobre os cuidados e riscos diários no trânsito, visando reduzir o número de fatalidades nas estradas. Uma questão peculiar e que poucos se dão conta é que, além do impacto, os airbags usados para proteção, também podem comprometer a visão.

Uma série de pesquisas já avaliaram as sequelas faciais, pois o equipamento leva apenas 30 milésimos de segundo para expandir, a uma velocidade de 300 km/h, atingindo o rosto diretamente. As estatísticas são preocupantes no Brasil, bastante dependente da malha viária nacional e, consequentemente, a situação contribui para elevar o número de acidentes anuais. As informações do Painel CNT de Acidentes Rodoviários, em 2024, revelaram 73.114 acidentes com 6.153 mortes, ou seja, 16 ocorrências diárias. A região Sudeste lidera o número de registros, respondendo por 53% deles. Normalmente, os olhos costumam ser esquecidos em caso de acidentes automobilísticos, enquanto se verifica a possibilidade de fraturas ou ferimentos, fato muito perigoso para a integridade da visão. Um estudo da Fundación Mapfre, através de seu Instituto de Segurança Viária, na Espanha, analisou os efeitos e lesões oculares e orbitárias. O levantamento avaliou os choques de baixa velocidade com vítimas usuárias de óculos, apontando o risco de ocorrência de lesões em alguns casos.

O principal motivo está na postura dos motoristas com o posicionamento do banco em relação ao volante que acopla o airbag. A recomendação é ficar 45 centímetros de distância, porém, a média usada pela maioria é um pouco menor, de 42,5 centímetros em relação à distância, contada a partir dos olhos. O maior perigo é entre usuários de óculos, contudo, o ferimento depende de vários fatores, como os materiais da armação e da lente.

Uma série de testes foram feitos a 30 km/h para avaliar a situação em relação a condutores com óculos. A maioria dos óculos de armação, completamente fechada, ficou imóvel no rosto, proporcionando proteção ocular, porém, algumas quebraram. Após as demonstrações, a recomendação dos pesquisadores é optar por armações fechadas e evitar lentes de vidro mineral, por possuírem maior probabilidade de estilhaçar e perfurar o olho.

O ideal é verificar também os detalhes de composição, informados pelos fabricantes, analisando a questão da solidez. Quem já passou por procedimentos oculares, como cirurgias de catarata, refrativas ou glaucoma, ainda deve ter mais atenção, tanto ao trânsito, quanto à proteção ocular, já que apresentam maiores riscos para lesões graves.

A verdade é que os acidentes, até mesmo uma simples batida, pode provocar uma série de problemas oculares que não se restringe somente à perfuração. As consequências incluem fraturas, inchaços, descolamento de retina, ceratite e o hifema, inclusive, sendo possível provocar cegueira, caso não sejam tratados rápida e adequadamente. A recomendação médica é sempre procurar um consultório urgentemente, após um acidente automobilístico, para uma avaliação adequada, prevenindo problemas mais graves. A indicação é para qualquer pessoa, mesmo sem ferimento aparente.