Autora de cinco livros infantis, Delba fala sobre imaginação, literatura, oralidade e o jeito de olhar o mundo, sem deixar de lado suas raízes mineiras.

Às vésperas do Dia das Crianças, o Caderno Literário conversa com Delba de Avelar Menezes, escritora que encontrou na literatura infantil uma das expressões mais fortes de sua criação. Dos sete livros publicados, cinco são destinados ao público infantil: Caraminholas de Zé Prequeté, A bruxa que caiu em tentação, Os três Pituchicos, Três contos em cocorês e Esse gato é seu?. A presença da infância em sua obra, entretanto, não significa uma literatura limitada aos pequenos. Delba conta que gosta de “brincar” de ser criança durante a criação, buscando olhar o mundo por uma perspectiva marcada pela ludicidade. Ao mesmo tempo, acredita que um livro infantil pode convidar leitores de diferentes idades a viajar pelas ilustrações, pelo colorido e pela imaginação e, como define, “reler o mundo pela perspectiva da descoberta”.

Essa relação com a descoberta talvez ajude a compreender a liberdade que Delba preserva diante da criação. Ela não se prende a um único gênero: transita pela literatura infantil, pelos contos, pelas crônicas e pela poesia, deixando que a espontaneidade determine o caminho. “Dos meus sete livros publicados, cinco são infantis”, observa, reconhecendo que cada gênero revela uma faceta diferente de sua escrita.

A trajetória profissional também ampliou seu olhar. Delba atuou na educação, trabalhando especialmente com pessoas com deficiência e com a Educação de Jovens e Adultos, além de ter sido jornalista e psicóloga. Ela, porém, não estabelece uma relação direta entre essas experiências e sua produção literária. Para a escritora, o impulso vem sobretudo do encontro com pessoas, suas histórias de vida, seus cenários, subjetividades, culturas e marcas do tempo.

Se a infância lhe oferece uma lente para a descoberta, Minas Gerais lhe oferece matéria para a memória e para a oralidade. Em Contos de Mineiro, uai, sô!, Delba mergulha nos chamados causos e na maneira mineira de contar histórias. Para ela, a oralidade é uma fonte rica de conhecimento e revelação do modo de viver de um povo, carregando histórias de vida, imaginação coletiva e um patrimônio linguístico próprio.

A construção do livro nasceu, segundo Delba, da soma entre o prazer da escuta, a pesquisa e a escrita literária. Personagens, cenários, paisagens e o falar mineiro entram na narrativa. E há uma ideia especialmente interessante em sua reflexão: mesmo quando é ficcional, a literatura também pode funcionar como registro histórico. A contadora de histórias completa esse universo.

Para Delba, contar uma história é viver a magia do encontro direto com o público. Corpo, voz, expressões, entonações, pausas, silêncio, figurino, cenário e até os acontecimentos imprevistos passam a fazer parte da experiência. A história deixa de estar apenas na página e ganha presença.

Mas a leitura silenciosa também tem sua própria força. O leitor pode reler, fazer pausas, pesquisar, imaginar e até conversar em pensamento com o autor. São relações diferentes, acredita Delba, mas igualmente interessantes, nas quais leitor e escritor acabam se complementando. Quando o público é infantil, a surpresa é quase garantida. Delba conta que as crianças são capazes de fazer perguntas inusitadas e que é preciso estar preparado para elas. Talvez por isso ela não imagine previamente o público ao escrever. “Não imagino o público, deixo acontecer”, afirma.

Essa postura combina com a própria maneira como enxerga a criação: como uma semente. Existe o desejo de bons frutos, mas a colheita só o tempo dirá. E, no caso de uma escritora que transita entre crianças, adultos, poesia, causos e contação de histórias, talvez sejam justamente essas diferentes colheitas que mantenham a literatura em movimento.

Há ainda a natureza, outra presença importante em sua escrita. Delba cresceu em ambiente rural, entre animais e plantas, em uma família ligada à terra e às criações, e continua vivendo em área rural. Esse contato aparece em seus textos, mas também em uma forma de observar: o mundo de dentro ligado ao mundo de fora, a experiência transformada em palavra.

Neste Dia das Crianças, a literatura de Delba pode ser lida, portanto, por diferentes caminhos: pela brincadeira e pela imaginação dos livros infantis; pela memória dos causos mineiros; pela escuta da contadora de histórias; pela síntese da poesia; e pelo olhar atento de quem entende a literatura como possibilidade de descobrir — ou redescobrir — o mundo.

PINGUE-PONGUE

Uma palavra que merece virar poema: Tempo
Um livro que gostaria de ter escrito: Grande Sertão: Veredas
Um personagem que mora na sua memória: Os três porquinhos
Uma história que você nunca se cansa de contar: Duas mulheres perdidas no tempo, um conto do livro Contos de Mineiro, uai, sô!
Um verso que gostaria de guardar para sempre: No meio do caminho tinha uma pedra.
Uma flor: Açucena
Um lugar para escrever: Escritório